Bebé imaginário vs bebé real: o confronto

Bebé imaginário vs bebé real: o confronto

Jan 12, 2023

O parto marca o confronto do bebé imaginário com o bebé real. Este é dos momentos, se não o momento mais desejado por uma família.

Por enfermeira SOSMAMÃ Ana Lopes, especialista em Saúde Infantil e Pediatria

Ainda te lembras quando descobriste que estavas grávida(o)? Lembraste ao certo quais foram as primeiras emoções que sentiste?

Quando sabemos que estamos grávidos, parece que entramos numa montanha russa de emoções

 

Ainda me lembro da primeira vez que soube que estava grávida e do choro compulsivo em que entrei. Há muito que queria ser mãe, mas naquele momento não fazia parte do projeto desenhado e parecia que nada fazia sentido. Ao mesmo tempo sentia que chorar não era digno para o momento, caramba ia ser mãe! Era algo que queria e chorava porque não era o momento certo… Não parecia certo! Mas será que existe alguma forma correta de viver a gravidez?

A gravidez…

A verdade é que a gravidez é um momento complexo de grandes mudanças ao nível físico, emocional, social e familiar. São mudanças da mulher e da sua família e é um tempo em que esta se reorganiza para a chegada de um novo membro. E desde o momento em que a mulher descobre que está grávida até ao nascimento do bebé, exige uma preparação por parte de todos. Consciente ou inconscientemente todos se devem preparar, uma vez que todos vão descobrir um novo papel e uma nova forma de interagir no mundo.

Durante a gravidez todas as famílias sofrem um processo de transformação que não se cinge única e exclusivamente à transformação física do corpo da mulher. É necessário compreender o significado desta nova vida para esta família, integrar e construir novos papéis e perspetivar a sua vida futura. E é através da construção de um bebé imaginário que se inicia o processo de integração deste novo ser na história pessoal e familiar desta mulher (França, 2021). Este momento não é exclusivo da mulher e sabe-se que o mesmo ocorre em todos os membros da família.

Quantos pais não imaginaram como seria o seu filho? Quantas avós, tias não sonharam como seria pegar pela primeira vez nesta criança e como é que ela seria? Todos nós pais, avós, irmãos ou tios imaginamos como será esta criança. Atribuímos características físicas, emocionais e até perspectivamos o seu futuro. Será um(a) artista? Será um jogador de futebol? Irá ter o cabelo do pai ou os olhos da mãe? Será que terá alguma doença? Vai gostar do mesmo que eu? Será fisicamente parecido comigo? Mas qual o impacto que este bebé idealizado pode ter?

A primeira fase…

A literatura fala da importância deste processo de imaginar o bebé como um processo vinculativo durante a gestação e distingue-o em diversas fases. Numa primeira fase, muito caracterizada no primeiro trimestre da gravidez, existe por parte da mulher e da família a aceitação da notícia de gravidez (Delfino, 2012). Nesta fase são descritos sentimentos de felicidade, estranheza, ambivalência e insegurança e existem inúmeras mulheres que sofrem também um processo de aceitação ou não da sua nova imagem corporal (Chagas, 2014). 

A segunda fase…

Numa segunda fase e em muito relacionada com o segundo trimestre da gravidez, a mulher começa a sentir os primeiros movimentos fetais, confirma e vê pela primeira vez o seu filho através de ecografia. O bebé começa a ser entendido como um ser único e independente da mulher que o gera (Silva, 2016; Chagas, 2014; Delfino, 2012; Ferrari, Piccinini, & Lopes, 2007). É nesta altura que os pais começam a atribuir ao feto características e personalidade e começam a relacionar-se com ele. Exemplos disso, são a forma como os pais identificam o seu filho como um ser carinhoso ou mais agressivo através da interpretação dos seus “pontapés”. E esta personificação da criança vai acontecendo à medida que ambos os pais sabem o sexo do bebé, lhe atribuem um nome, compram as suas peças de roupa e modificam as suas casas para a sua chegada (Chagas, 2014; Ferrari, Piccinini, & Lopes, 2007).

Para além disso, vão sendo dadas a esta criança características físicas e psíquicas que a tornam familiar, fazendo desde cedo parte da família. E é esta atribuição de características que ajuda os futuros pais a receber este filho no pós-parto imediato. A existência de inúmeras experiências vividas durante este período, leva a um conhecimento profundo de todos (Silva, 2016).

Ainda me lembro da primeira eco em que vi a Matilde pela primeira vez, e momento este em que deixou de ser para nós o Martim e ganhou vida a Matilde. De início ficamos chocados, tínhamo-nos convencido que iríamos ser pais de um menino, que iríamos jogar futebol com ele e eu até já entrava nas lojas de puericultura e me focava nas coisas de menino. A partir desse dia parece que vivi toda uma outra gravidez: agora seria mãe de uma menina e o meu cérebro de mãe teria que se habituar a olhar e a pensar como seria ser mãe de uma menina. 

A terceira fase…

Por fim e com a chegada do 8º mês da gestação prevê-se a terceira fase. O feto começa a ter uma identidade própria e há o desejo, por parte dos pais, de uma aproximação do bebé imaginado ao bebé real. É nesta fase que as características da identidade são intensificadas por parte dos pais e em que os mesmos começam a integrar este bebé nas suas rotinas, por exemplo ao falarem com ele ainda na barriga (Chagas, 2014). Assim, o processo de imaginar o bebé é fundamental para todos, uma vez que o ser humano nasce na relação com os outros (Chagas, 2014 citando Freud, 1968).

“Existir na cabeça dos pais e no corpo da mãe é estar antes de nascer, é tecer as primeiras malhas da vinculação intra-uterina” (Coelho, 2009) (Chagas, 2014).

O parto…

Com o parto existe, por parte dos pais, um confronto entre este bebé imaginado e o bebé que é recebido nos seus braços e por vezes, este momento não corresponde àquilo que era idealizado. Estes pais passam por um processo de adaptação onde existe a necessidade de reestruturar algumas das características previamente atribuídas consoante as apresentadas pelo o bebé na realidade. Por este motivo ser muito importante, na construção deste imaginário deixar espaço para uma imprevisibilidade, dado que é nesta que o bebé emerge com um ser único (Chagas, 2014).

Para mim não foi estranho ver a Matilde fisicamente, mas foi muito estranho sentir a sua inexistência dentro de mim. Lembro-me de olhar para o berço e sentir que aquele bebé não era o meu bebé. Sent falta dos pontapés da minha pipoca a determinadas horas do dia. Foi estranho e constrangedor. Não é que não a amasse, mas este processo de transporte do meu bebé para esta bebé que tinha nascido demorou alguns dias. É por este motivo e por tantos outros, que é tão necessária a discussão destes temas na preparação para a parentalidade e de partilharem este bebé imaginado em casal.

Não ter medo de dizerem o que imaginam, com o que sonham e mesmo em verbalizar as vossas dificuldades quando o nascimento do vosso filho é uma magnífica estratégia para que este momento ocorra de forma tranquila. Porque por vezes, o nosso filho pode nascer e não corresponder ao que imaginamos ou que idealizamos e é normal sentirmo-nos perdidos e com a sensação de estranheza.

Como gerir o confronto?

O confronto é real. E pode ou não corresponder à realidade. Procurem usar e abusar do contacto pele-a-pele, falar com o vosso filho e em conjunto criar novos sonhos e novos projetos. Aceitar que este bebé é diferente e que mesmo que não seja aquilo que imaginaram e que não sintam logo de imediato aquele amor incondicional que falam, não são má mãe ou mau pai. São apenas vocês a gerir as vossas emoções!

E sim, eu não senti um amor imediato pelos os meus filhos assim que nasceram, esse amor foi crescendo a cada toque, em cada embalo, em cada banho, em cada carícia e em cada momento que juntos privamos. Porque tal como na vinculação, o amor não é algo mensurável e imediato é um processo que se constrói na relação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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