O sofrimento de regressar ao trabalho: 7 dicas para a tranquilidade da mãe

O sofrimento de regressar ao trabalho: 7 dicas para a tranquilidade da mãe

Dez 7, 2020

 

Quando pensei em escrever sobre este assunto a ansiedade veio logo ao de cima. Ainda estava a usufruir da licença de parentalidade, 24 sob 24h com o João Maria…

A “Júlia” disse-me que tudo o que eu sentia era normal. Ela que foi mãe de uma princesa em 2019 e aos 5 meses da bebé retomou a sua profissão. A “Júlia” é enfermeira numa Unidade de Cuidados Intensivos. E eu tinha de lhe pedir que nos trouxesse a sua experiência:

“Filha de enfermeira, segui os mesmos passos… Nunca os horários loucos e as limitações de uma vida social que esta profissão nos rouba, alguma vez me passaram pela cabeça. E desde que a nenuquinha nasceu tudo mudou! Foi a primeira vez que questionei a minha profissão e tudo o que nos rouba… Damos tanto aos outros mas sentimos que «falhamos» com os nossos. Ser mãe foi a melhor prenda que alguma vez recebi e todo o processo foi único e vivido com muita intensidade. A pior fase foi, sem dúvida, quando ao fim de 5 meses veio o regresso ao trabalho… Um sentimento de revolta e frustração, por ver que a menina era pequenina de mais para ser entregue a terceiros. As dúvidas de todas as mães eu também as tinha:

– E se não percebem o choro dela?

– E se a bebé não se adapta?

– E se não têm paciência para aquela birra da minha filha para adormecer?

Tantas interrogações que tornaram esta fase dolorosa. Lágrimas, muitas! Inseguranças, todas! E tantos pedidos de desculpa pelo sentimento de lhe estar a falhar. Mas teve de ser, a vida não nos deixa alternativas, as coisas não estão feitas para que haja alternativas… E no nosso caso a licença alargada não poderia ser uma opção.

É tão difícil gerir os dias em que a mãe e o pai trabalham em turnos de 12h e chegamos ao berçário e a nossa menina é a única que espera pelo momento de regressar a casa. É tão difícil aceitar que assim tenha de ser… Embora o sorriso dela faça tudo parecer mais fácil, o sentimento de culpa (sem se ter culpa) é demasiado forte!

Habituei-me a prometer-lhe, todos os dias, que a quero compensar… Aprendi a dar ainda mais valor aos momentos que passamos juntas. Será sempre filha de pais da área da saúde, andará sempre com os brinquedos às costas entre a casa dos pais e a casa dos avós. Provavelmente haverá natais ou épocas festivas em que só terá um de cada vez. Mas vamos fazer com que as presenças marquem mais do que as ausências e faremos sempre por valer a pena. No fundo, o amor que sentimos por ela é o que queremos que marque o seu desenvolvimento“.

UMA PREOCUPAÇÃO PARA A MÃE

O regresso ao trabalho é algo que preocupa todas as mães e pais. Perdoem-me papás, mas esta é uma das grandes preocupações das mães. É a mãe, habituamente, quem fica com o bebé mais tempo desde que ele nasce. Pensar na possibilidade de desapego é algo CAUSADOR DE ANSIEDADE, muitas vezes de ALTERAÇÕES NO SONO e NO BEM-ESTAR MATERNO e, consequentemente, FAMILIAR.

QUE SUGESTÕES PARA TORNAR ESTA FASE MENOS DIFÍCIL?

Uma vez mais, não existe livro de instruções, receita ou bola de cristal que nos permita prevêr como tudo vai ser e quais os ingredientes “secretos” para que o regresso ao trabalho não seja motivo de doença mental e/ou alterações na dinâmica familiar.

Contudo, há sugestões que podemos pôr em prática. Eu comecei um bom tempo antes de regressar ao trabalho… E tu?

1.) PLANEAR ANTECIPADAMENTE ONDE DEIXAR O BEBÉ

Esta é a preocupação maior dos casais e, portanto, é importante ainda na gravidez pensar-se sobre este assunto: existe algum familiar que tenha a possibilidade de ficar com o bebé? É desejo dos pais deixar o bebé ao cuidado de um familiar? A opção será uma ama? Ou é necessário procurar uma creche e garantir vaga? São tudo questões a responderem em casal.

2.) PREPARAR ANTECIPADAMENTE O “DESAPEGO” MATERNO

Quando falo em desapego, falo na importância da mãe conseguir deixar o bebé ao cuidado de outra pessoa para sair de casa. Seja o pai, a avó, a madrinha ou o amigo. Para as mães que estão a amamentar, é essencial começarem a pensar em extrair leite materno e congelar em sacos apropriados ao efeito (é suficiente começarem a extrair por volta do 3º mês de vida do bebé, mesmo para as mães que vão trabalhar ao 4º mês).

É importante que, logo que possível, estas saídas sejam iniciadas: 20 minutos hoje para ir beber um café, 30 minutos daqui a 3 dias para ir à esteticista, 1h daqui a uma semana para fazer uma caminhada. Tudo são progressos para a mãe e para o bebé.

No nosso caso, a partir dos 2 meses de vida do João Maria, fui tentando sair aos poucos. Custava-me cada vez que saia. Não que não confiasse no pai do meu filho. Claro que confio. Mas porque tinha receio que o bebé precisasse de mim e eu não estivesse para ele :) Comecei por marcar esteticista, pois é ao lado de nossa casa; outras vezes ia só ao café; outras ia apenas fazer uma caminhada para me sentir melhor. O dia em que deixei o João Maria mais de 2h pela primeira vez com o pai foi repleto de ansiedade. Fui ao supermercao ao fim de semana, em Dezembro (o bebé tinha 2 meses e meio). Tirei leite com a bomba e deixei no biberão para o pai dar. Foi horrível. O bebé não pegou no biberão, chorava inconsolável, o pai transpirava e eu estava a 30 minutos de casa. Podem imaginar que foi uma experiência que me fez quase não ter vontade de repetir ;) Mas teve de ser. Tive de voltar a fazê-lo mais tarde. E ainda bem que o fui fazendo!

3.) CUIDAR DA AUTO-ESTIMA MATERNA

Aliado ao ponto anterior está este. Uma mãe que se preocupa em, todos os dias, olhar-se ao espelho, colocar um pouco de creme, vestir uma roupa que não o pijama, alimentar-se bem e manter-se ativa é essencial para cuidar da sua saúde mental. As taxas de depressão pós-parto são ainda elevadas no nosso país. Temos de pensar que só estando bem poderemos cuidar do nosso bebé e fazer com que também ele esteja bem.

Cuidar da auto-estima é também praticar hábitos saudáveis: uma alimentação equilibrada e exercício físico pelo menos 3x na semana permite que mantenhamos níveis de serotonina adequados (hormona responsável pelo bom humor, melhorias no sono e bem-estar geral).

Consultem o artigo «Truques saudáveis para manter o peso na gravidez e pós-parto sem passar fome» e vão estando atentos às receitas que publico de refeições mais saudáveis e deliciosas.

4.) CRIAR ROTINAS COM O BEBÉ

Pelo menos 5 a 6 semanas antes do regresso ao trabalho, é importante iniciar (para quem ainda não o fez) uma rotina de sestas e alimentação do bebé. Será muito mais tranquilizador para a mãe e para o pai, regressarem ao trabalho sabendo que o bebé está habituado a determinada rotina para dormir e para comer. Explicar os pormenores a quem fica com o bebé é igualmente essencial nesta fase.

Consultem o artigo «Mãe quero dormir! Dicas úteis para ter sucesso nas sestas do bebé»

Para quem vai colocar o bebé na creche, aconselho a questionarem na instituição as rotinas habituais da mesma. A maioria pratica horários de almoço às 11h e sesta da manhã por volta das 12h. Já a pensar nisso, adequei os horários do João Maria aos da creche, de forma a facilitar a sua integração antes de iniciar. Não considero que seja isso o certo, acho que as creches sim deviam ir ao encontro das necessidades dos bebés, mas infelizmente não é isso que vimos todos os dias. As creches tÊm rotinas estipuladas e vão adaptando cada bebé às suas rotinas institucionais… Talvez um dia este panorama mude!

5.) INFORMAR-SE SOBRE OS DIREITOS DE PARENTALIDADE

Nomeadamente a redução de horário diária e os casos em que a mãe e o pai podem faltar ao trabalho sem que lhes seja negada a justificação da falta.

6.) MARCAR REUNIÃO COM A CHEFIA

Em caso de preocupação, esta alternativa existe sempre e é recomendada para exposição das dúvidas e anseios maternos/paternos relativamente aos novos horários, direitos e deveres do trabalhador.

7.) PLANEAR O DIA SEGUINTE, ORGANIZAR A SEMANA E CONVERSAR EM CASAL

É a última dica, mas podia ser a primeira :) Tal como vos referi nos artigos «Como aliar hábitos saudáveis a poupança económica? Para grávidas, mamãs e não mamãs» e »O 1ºmês do bebé: vamo-nos preparar? Para pais, família e amigos», planear a semana é muito importante quando desejamos passar menos tempo na cozinha, passar mais tempo com o nosso filho, alimentarmo-nos bem e poupar dinheiro.

Definir ementas semanais, tarefas domésticas e, sobretudo, conversar sobre isso em casal é fundamental para haver harmonia familiar. Se sentirem que em casa as coisas estão bem organizadas e que conseguem aproveitar todos os minutos com o vosso filho, mais facilmente se vão preparar para regressar ao trabalho e fazê-lo da forma mais harmoniosa possível :)

E convosco, como foi ou está a ser a preparação do regresso ao trabalho? Como se sentem nesta fase? Partilhem as vossas experiências.

4 Comments

  1. Tânia Abrigada

    Tão isto!! Custa muito… faltam uns dias e sinto o coração tão apertadinho! Sei que é o processo normal… que faz falta, que tem que ser e que nos fará bem! Mas acho que ainda custa mais, com q situação que se vive atualmente! Penso que ainda gera mais ansiedade e medo! Ou pelo menos é assim que eu sinto! :disappointed_relieved: Mas há que manter a esperança de que tudo correrá bem! :four_leaf_clover::pray_tone2:
    obrigada por este artigo tão bom! ❤

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    • Enf Andreia

      É um sentimento tão pessoal que custa a expressar! Força minha querida, tenho a certeza que passado dois ou três dias de teres ido te sentirás melhor de ver como a menina fica bem com o papá :):)

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  2. Claudia Amaral

    Por aqui já falta menos de 1M :heart_eyes::heartbeat:
    É preciso e importante, por mt q custe…
    Agora custa-me mais do que na 1a vez, porque a Íris só integrou a creche aos 2A e a Áurea terá 8M… bem diferente!!
    Mas tudo correrá bem… mt embora me preocupe ainda + a atual conjuntura …
    Força a todos ❤

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    • Enf Andreia

      Obrigada pela partilha :) É dificil, muito sem dúvida! Por aí sei que já se atravessam alterações no sono, verdade?

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