“Levei as mãos à frente e toquei-lhe nos ombros” – o milagre em 8 minutos

“Levei as mãos à frente e toquei-lhe nos ombros” – o milagre em 8 minutos

Set 9, 2020

Sempre que me falavam de amor eu associava ao amor materno (da minha mãe por mim, sem ter consciência da dimensão desse amor), ao amor paterno, ao amor de irmãos, ao amor de namorados… Nunca soube associar ao amor de uma mãe por um filho. Por mais que, durante tantos anos, a resposta da minha mãe às perguntas “mãe porque não compraste antes para ti?” e “mãe porque não comeste tu a última fatia do bolo?” fosse sempre a mesma: “um dia, filha, vais perceber que os teus filhos serão os únicos por quem te ultrapassarás como pessoa“. Nunca me esqueci. E a minha mãe nunca se enganou 😍

Tudo vem no momento certo. Ou achamos nós! Mas quando pensamos bem, temos dificuldade em dizer que é o momento certo: ora porque o emprego ainda não é “o tal”, porque a casa ainda não está pronta, porque a conta bancária não está composta… Tentamos arranjar justificações quando na verdade a insegurança e o medo do futuro nos impedem de avançar. Revêem-se nestas palavras? 

Decidir ter um filho é o projeto mais complexo e duro na vida de um casal. Temos de nos preparar mental, psicológica, física e socialmente para esse fim. E quando o teste positivo finalmente chega há um misto de emoções: Será verdade? E agora? Como vai ser o amanhã? Para o ano já vamos ter o nosso bebé no meio de nós? Como vamos contar à família? Será menino ou menina? Como vai ser o parto?

Ui… O parto!

Diariamente não pensava nisso. Tentava não pensar, pelo menos. Precavi-me e nos dois anos que antecederam a decisão de engravidar, fiz um seguro de saúde que cobria na totalidade uma cesariana. Sim, eu sei: Sou enfermeira e estudei que o parto eutócico (parto normal) é o mais benéfico para a mãe e para o bebé. Mas o medo e a pouca tolerância à dor que julgava ter, levaram-me a planear uma cesariana. Planear nem sempre é o certo!

Sempre confiei muito na opinião da minha obstetra. E no terceiro trimestre da gravidez, sugeriu-me que tentasse um parto normal, pois o meu historial familiar e as características do meu corpo indicavam que o momento tudo tinha para ser rápido. A médica não se enganou. Eu confiei. Uma vez mais. não me dececionou.

Naquele dia, acordei com uma moinha. Passaram poucas horas até começar com contrações. Cerca das 15h00 já tinha contrações regulares de 15 em 15 minutos. Uma dor tolerável mas intensa. Percebi que o início do trabalho de parto estava próximo. Como adepta do desporto que sou, sugeri ao meu marido que fôssemos caminhar e ele aceitou. Caminhámos cerca de 1km até que a dor se intensificou. A cada 100 metros precisava de respirar fundo. A vontade de prosseguir dava-me força para avançar. Até ao momento em que não consegui mais. Tivémos de voltar para casa. Jantámos uma sopa e pão com marmelada, tal era o medo de estar horas a fio sem poder comer 😋

O trajeto para o hospital nunca foi tão demorado. Era a dor mais forte que alguma vez tinha sentido. Mas ao mesmo tempo, quando a dor abrandava, tinha tempo para respirar e me preparar para a próxima contração. O curso de preparação para o nascimento tinha-me ajudado. Parecia ouvir a voz da enfermeira do centro de saúde ao ouvido “Andreia, respira como te ensinei. Concentra-te”.

Chegámos ao hospital. Nunca desejei tanto que me administrassem algo para atenuar a dor. Vi as nuvens quando me deram a primeira dose da epidural. Pensei finalmente poder relaxar, descansar um pouco e preparar-me para receber nos braços o meu bebé. O meu marido, ao meu lado, nunca me largou a mão. Disse-me para fechar os olhos e relaxar. Não tive tempo de pegar no sono. Em menos de 45 minutos sentia uma pressão intensa na bexiga e chamei a enfermeira. Ouviram-se gritos, a maca parecia voar pelo corredor. Não havia tempo. O bebé estava a nascer.

8 minutos e fui abençoada pelo milagre da vida. Ouvi uma voz “Andreia venha buscar o seu bebé”. Arrepio-me ao contar-vos isto. Levei as mãos à frente e toquei-lhe nos ombros. Percebi que era o meu bebé e não hesitei: trouxe-o até mim e contemplei-o. Era tudo o que eu sonhava. Nem eu sei o que sonhava! Mas era tão lindo. Era o meu bebé, para sempre meu. Finalmente tinha comigo o maior amor da minha vida 😍

Ao nascer o meu bebé, nasceu uma mãe em mim. Conto-vos tudo no artigo «uma mãe que nasce».

E convosco, como foi o momento do parto? Para quem ainda não teve o seu bebé, como imaginam este momento? Partilhem a vossa história.

6 Comments

  1. Rita

    Já sabes q a minha experiência são duas cesarianas, 2 perfeitas cesarianas. Data e hora marcada para me tranquilizar. A primeira porque o meu corpo assim o quis, a segunda mais por opção minha. Independentemente da forma como o milagre do nascimento acontece…. É único! Não somos mais nem menos pela forma como os nossos filhos nascem. Ouvir o primeiro choro é a sensação mas indescritível do mundo… ❣️

    Reply
    • admin

      Concordo inteiramente!! O tipo de parto não muda nada! O importante é o momento e teres tido a oportunidade de ouvir o choro do teu bebé e de usufruir do momento inicial com ele é indescritivel. Da forma que tiver de ser. Que assim seja e que estejamos tranquilas para aproveitar o momento. Obrigada pela partilha <3

      Reply
  2. Bruna Piree

    Que bela forma de exprimir este momento maravilhoso que só nós maes sentimos ❤❤
    O meu 1 parto que foi ha 11 anos,foi parto normal mas nao me custou muito. Rebentaram as aguas naturalmente e entrei e trabalho de parto pouco depois e confesso que embora tenha custado,nao foi tão doloroso como o segundo parto..precisamente faz hoje 3 semanas…parto induzido e 16h em trabalho de parto…custou muito mas é a maior benção da vida

    Reply
    • admin

      Bruna que bom que de identificou em algumas das palavras que escrevi :) Obrigada pela sua partilha! Infelizmente há situações marcantes pela negativa, mas é certo que no futuro o que vamos recordar são os momentos bons! É o choro, o primeiro olhar, o primeiro toque, o cheiro!! Fico feliz de saber que tudo está bem agora e que tem consigo duas crianças maravvilhosas! Muitas felicidades <3

      Reply
  3. Claudia Amaral

    Ler o 1. parágrafo é para mim muito emocionante, sabes porquê… Minha rica mãe! ❤️
    Sim, revejo-me muito nas tuas palavras… A propósito, amo lê-las!!
    Ora bem, o parto. O parto sempre almejei o parto normal, em ambas… E felizmente assim foi! ❤️ Não como eu sonhava, com rebentamento da bolsa em água e um parto de parcos minutos… Ambos induzidos, o 1. com muitas horas de espera, 18h até entrar em trabalho de parto efetivo, que durou 7h Aí sim conheci as “belas” (ironia) e duras contrações… Mas tranquilo, pois correu tudo pelo melhor ❤️ O 2. já foi bem mais eficiente, com cerca de 6h a aguardar efeito da medicação e dores muito mais curtas no tempo.
    Que bênção! ❤️❤️❤️

    Reply
    • admin

      É incrivelmente bom saber que alguém se pode rever nas minhas palavras. Obrigada pela emocionante partilha <3

      Reply

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado.

× Podemos ajudar?